Partida
Foi uma noite muito longa, mas
aquele dia amanheceu e ela estava ali. A pequena estação de trem estava vazia,
só se ouvia o barulho da “Maria Fumaça” aguardando os passageiros.
Deixava para trás uma infância
vivida entre as florestas de araucária, os prados verdes onde cavalgava.
Deixava ali os sonhos da adolescência, do primeiro amor, das primeiras
decepções.
Amava a pequenina cidade onde nasceu,
mas todos temos nossas ambições e a dela era poder continuar seus estudos, crescer,
construir uma nova vida, fato que jamais conseguiria ali ficando.
Buscar novos horizontes é e
sempre será o sonho de muitos jovens e ela não era nenhuma exceção, o difícil
foi tomar esta atitude.
Ali em pé aguardando o horário de
sua partida, seu coração estava apertado, a ansiedade fazia com que o tempo não
passas e pediu para ninguém acompanhá-la, pois tinha medo de prosseguir diante
de presenças amadas.
Enfim com muita coragem subiu os
poucos degraus, sentou-se em um banco de madeira beneficiada e envernizada ao
lado da janela que dava visão as paisagens tantas vezes admiradas e que agora
ficavam cada vez mais distantes do alcance de seus olhos.
O sol já mostrava seus primeiros
raios no horizonte, as paisagens lá fora já não eram mais as mesmas, o que se
via pela pequena janela eram arbustos pequenos pendurados nos barrancos,
enormes pedras rasgadas pelas explosões da construção da ferrovia.
O tempo foi longo até a chegada à
nova estação e a nova visão mostrava uma estação majestosa comparada a de sua
cidade. Barulhos ensurdecedores, pessoas apressadas, concretos frios e pessoas
totalmente desconhecida foi o que a acolheu.
Em sua bagagem poucas coisas,
somente o suficiente para recomeçar, porem a esperança estava presente, a força
de vontade era maior do que qualquer obstáculo que pudesse surgir.
Pequeno apartamento onde
dividiria espaço com mais uma sonhadora era o seu começo. A sala era pequena,
um sofá jogado em um canto, uma mesinha de centro com um arranjo de flores do
campo, um relógio antigo pendurado em uma parede branca, uma janela encoberta
com uma cortina florida que escondia a visão de um pequeno rio que corria
lentamente. A cozinha era minúscula conjugada a lavanderia, seu quarto também
era pequeno, cor de rosa e sua janela de cortinas grossas dava para a avenida barulhenta,
ao lado da porta um guarda roupas com uma extensão de prateleiras onde guardou
seus livros, retratos e pequenas lembranças que ganhou quando decidiu partir.
Não dava para comparar o espaço atual com aquela casa hoje distante, onde
cresceu entre espaços enormes, varandas em torno da casa onde corria entre
vasos de flores, espreguiçadeiras de palhas e o cheiro de ervas que o vento
trazia dos pequenos canteiros distribuídos ao redor.
A noite foi longa, a ansiedade do
começo de um novo dia fazia com que ela conseguisse apenas pequenos cochilos.
As recordações povoavam seus pensamentos e as incertezas atordoavam sua alma.
A madrugada chegou e o cansaço a
venceu, e quando finalmente acordou sentiu o cheiro característico do café que
sua amiga recém tinha coado.
Sabia que uma nova vida a
esperava lá fora e precisava estar pronta, correu para o chuveiro e deixou a
água molhar seus longos cabelos, escorrer pelo seu corpo e levar para o ralo as
últimas desesperanças. Tomou seu café e acompanhada de sua amiga saiu
apressada.
Era setembro e as flores das
arvores que ladeavam as avenidas pareciam sorrir para ela, os pássaros pulavam
de galho em galho parecendo segui-la em sua caminhada.
Fez sua inscrição em um cursinho
pré-vestibular bem próximo de onde morava, e em seguida apresentou-se a empresa
onde havia sido indicada.
Os dias seguintes pareciam sempre
os mesmos, trabalhava o dia todo, saia direto para seu curso e depois ia para
casa, dormia e novamente levantava para ir trabalhar.
Temos momentos na vida em que as
decisões tomadas nos leva a crer que realmente nosso sexto sentido está nos
orientando.
Foram meses intermináveis na
mesma rotina até que chegou o Natal. A empresa concedeu férias coletivas, e
agora poderia voltar à pequena cidade para rever a todos. Levantou cedo, mas
uma angustia inexplicável apertava seu peito sem um sentido lógico.
Concentrou sua atenção, pois
agora era só ir às compras. Escolheu com carinho cada presente, não esqueceu
ninguém e saiu do shopping carregada de sacolas.
O jornal anunciou mais uma
tragédia: Mais uma vitima de bala perdida, referente ao assalto ao caixa
eletrônico que fica em frente ao shopping.
Agora é o silêncio, a paz que
tanto buscou. Acabou ali mais uma vida, acabou ali mais um sonho.
Estava agora de volta aos verdes
campos, ao cheiro das flores, a terra onde seu corpo inerte repousaria para a
eternidade.
Adeus minha amiga, que o Senhor a
acolha em seus braços. A saudade sempre estará presente, mas o lugar em que
agora está é privilegiado. Só podemos pedir a Deus para olhar por todos os
nossos amigos que agora choram a sua falta.
Jane
Beatris

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