quarta-feira, 10 de setembro de 2014


Partida



Foi uma noite muito longa, mas aquele dia amanheceu e ela estava ali. A pequena estação de trem estava vazia, só se ouvia o barulho da “Maria Fumaça” aguardando os passageiros.

Deixava para trás uma infância vivida entre as florestas de araucária, os prados verdes onde cavalgava. Deixava ali os sonhos da adolescência, do primeiro amor, das primeiras decepções.

Amava a pequenina cidade onde nasceu, mas todos temos nossas ambições e a dela era poder continuar seus estudos, crescer, construir uma nova vida, fato que jamais conseguiria ali ficando.

Buscar novos horizontes é e sempre será o sonho de muitos jovens e ela não era nenhuma exceção, o difícil foi tomar esta atitude.
Ali em pé aguardando o horário de sua partida, seu coração estava apertado, a ansiedade fazia com que o tempo não passas e pediu para ninguém acompanhá-la, pois tinha medo de prosseguir diante de presenças amadas.
Enfim com muita coragem subiu os poucos degraus, sentou-se em um banco de madeira beneficiada e envernizada ao lado da janela que dava visão as paisagens tantas vezes admiradas e que agora ficavam cada vez mais distantes do alcance de seus olhos.
O sol já mostrava seus primeiros raios no horizonte, as paisagens lá fora já não eram mais as mesmas, o que se via pela pequena janela eram arbustos pequenos pendurados nos barrancos, enormes pedras rasgadas pelas explosões da construção da ferrovia.
O tempo foi longo até a chegada à nova estação e a nova visão mostrava uma estação majestosa comparada a de sua cidade. Barulhos ensurdecedores, pessoas apressadas, concretos frios e pessoas totalmente desconhecida foi o que a acolheu.
Em sua bagagem poucas coisas, somente o suficiente para recomeçar, porem a esperança estava presente, a força de vontade era maior do que qualquer obstáculo que pudesse surgir.
Pequeno apartamento onde dividiria espaço com mais uma sonhadora era o seu começo. A sala era pequena, um sofá jogado em um canto, uma mesinha de centro com um arranjo de flores do campo, um relógio antigo pendurado em uma parede branca, uma janela encoberta com uma cortina florida que escondia a visão de um pequeno rio que corria lentamente. A cozinha era minúscula conjugada a lavanderia, seu quarto também era pequeno, cor de rosa e sua janela de cortinas grossas dava para a avenida barulhenta, ao lado da porta um guarda roupas com uma extensão de prateleiras onde guardou seus livros, retratos e pequenas lembranças que ganhou quando decidiu partir. Não dava para comparar o espaço atual com aquela casa hoje distante, onde cresceu entre espaços enormes, varandas em torno da casa onde corria entre vasos de flores, espreguiçadeiras de palhas e o cheiro de ervas que o vento trazia dos pequenos canteiros distribuídos ao redor.
A noite foi longa, a ansiedade do começo de um novo dia fazia com que ela conseguisse apenas pequenos cochilos. As recordações povoavam seus pensamentos e as incertezas atordoavam sua alma.
A madrugada chegou e o cansaço a venceu, e quando finalmente acordou sentiu o cheiro característico do café que sua amiga recém tinha coado.
Sabia que uma nova vida a esperava lá fora e precisava estar pronta, correu para o chuveiro e deixou a água molhar seus longos cabelos, escorrer pelo seu corpo e levar para o ralo as últimas desesperanças. Tomou seu café e acompanhada de sua amiga saiu apressada.
Era setembro e as flores das arvores que ladeavam as avenidas pareciam sorrir para ela, os pássaros pulavam de galho em galho parecendo segui-la em sua caminhada.
Fez sua inscrição em um cursinho pré-vestibular bem próximo de onde morava, e em seguida apresentou-se a empresa onde havia sido indicada.
Os dias seguintes pareciam sempre os mesmos, trabalhava o dia todo, saia direto para seu curso e depois ia para casa, dormia e novamente levantava para ir trabalhar.
Temos momentos na vida em que as decisões tomadas nos leva a crer que realmente nosso sexto sentido está nos orientando.
Foram meses intermináveis na mesma rotina até que chegou o Natal. A empresa concedeu férias coletivas, e agora poderia voltar à pequena cidade para rever a todos. Levantou cedo, mas uma angustia inexplicável apertava seu peito sem um sentido lógico.
Concentrou sua atenção, pois agora era só ir às compras. Escolheu com carinho cada presente, não esqueceu ninguém e saiu do shopping carregada de sacolas.
O jornal anunciou mais uma tragédia: Mais uma vitima de bala perdida, referente ao assalto ao caixa eletrônico que fica em frente ao shopping.
Agora é o silêncio, a paz que tanto buscou. Acabou ali mais uma vida, acabou ali mais um sonho.
Estava agora de volta aos verdes campos, ao cheiro das flores, a terra onde seu corpo inerte repousaria para a eternidade.
Adeus minha amiga, que o Senhor a acolha em seus braços. A saudade sempre estará presente, mas o lugar em que agora está é privilegiado. Só podemos pedir a Deus para olhar por todos os nossos amigos que agora choram a sua falta.



Jane Beatris

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